domingo, 28 de dezembro de 2014

SENTIR OS SENTIDOS

Vivemos tão acelerados, tão automatizados, por vezes até tão amargurados mesmo sem saber disso, que nos esquecemos de quem realmente somos.
Interiorizamos nossa condição de seres mortais e seguimos adiante olhando pra frente. Mas estamos esquecendo de olhar para os lados nesse trilhar que se chama vida. Nesse breve espaço entre o nascer e o morrer deixamos o que é de fato importante e menosprezamos nossa condição de ser, simplesmente ser.
Porque simplesmente somos, sentimos. E nos esquecemos disso. Não falo de sentimentos que nos invadem diariamente. Estou falando de sentidos. De nossos simples e abençoados sentidos. Fomos agraciados com sensações diárias e nem sequer nos damos conta delas.
Sequer nos atemos a deliciosa sensação de sentir o vento no rosto, seu barulho em nossos ouvidos, nas copas das árvores. E  o sol ? Quantas vezes de fato paramos para simplesmente desfrutar da sensação calorosa queimando nossa pele ?
Vivemos em uma sociedade barulhenta, mas será que estou ouvindo tudo mesmo ao meu redor ? Pássaros, folhas, chuva, música boa... Também sabemos que hoje come-se muito e por isso vemos campanhas de se ter uma alimentação e estilo de vida mais saudável- o que realmente é muito válido. Porém ou se come demais ou de menos. Há aqueles que se empanturram, as festas de final de ano que o digam, e há aqueles que decidiram cortar tudo - o pobre do glúten que sempre foi comido agora é vilão. Não critico nem um nem outro, mas onde está o saborear dos alimentos ? O saborear que começa na contemplação na hora da escolha do alimento, no seu preparo ou simplesmente na sua mais pura degustação. Muitos de nós perdemos isso.
No dia a dia maçante não valorizamos as incríveis paisagens a nossa frente, que nos são dadas de graça diariamente. Não olhamos para o lado, não olhamos a flor que desabrochou, não olhamos nos olhos das pessoas, sequer levantamos o pescoço para contemplar o céu. Será que hoje você já viu o céu ?
Essas questões me vieram hoje não sei o porquê. Em um simples passeio com minha cachorrinha percebi como o vento estava delicioso, o barulho das árvores, o sol delicioso e quente, o som dos pássaros e pensei como nos furtamos diariamente de sensações assim. Também não pude deixar de lembrar do filme "Cidade dos Anjos" que fala de uma forma bem romântica desse dom raro que nos foi dado - meros mortais imperfeitos: nossos sentidos.
Convido a todos que hoje sintamos , cada um de sua forma e gosto individual, um pouco de cada um de nossos milagrosos sentidos para que tenhamos o prazer de ter prazer pelo que somos.Simples assim.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

AMARELINHA

Joga a pedrinha
Até o céu alcançar
Pula num pé só
Sem desequilibrar.

Não vale pisar na linha,
Nem errar a quadrinha.
Vai e volta direitinho,
Pedra na mão, olho no pezinho.

Nesse vai e vem
Nesse pula pula
Ninguém se atreve a parar
Pois aqui o céu não é o limite
E a vida só vai começar...



terça-feira, 7 de outubro de 2014

O PIÃO

Rodopia o pião
puxado pelo cordão
Rodopia sem parar
querendo o chão furar.

Roda, roda, roda
fazendo a cabeça girar
Na volta que traça,
encanta a praça.

Mexe com tudo
e assim muda o mundo.

Gira, gira o pião
e girando vai
entrelaçando o meu coração.

A CORDA


A corda bate no chão
e no mesmo compasso
pula o menino com toda a atenção.

A corda bate no chão
e no mesmo compasso
o pezinho sujo salta do chão.

A corda bate no chão
e no seu compasso
no rosto do menino faz um traço.

Já não lembra do estômago vazio
nem do pé descalço
Esquece que há muito não ganha um abraço.

No compasso da fantasia
vale a alegria
e o desejo de não errar.

A corda bate, bate, bate
mas bate com carinho.
O menino pula, pula, pula
e não quer mais parar.

A corda bate,
mas não faz o menino lembrar
que a vida também nele bate bem devagar,
sem parar.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A SAUDADE QUE ME FAZ CHORAR, CHORAR DE ALEGRIA


Às vezes nos deparamos meio tristes, melancólicos, sorumbáticos (não resisti a incluir esse adjetivo que tanto meu pai falava - talvez até pelo fato da saudade nos reportar ao passado) e lutamos para fugir a esses sentimentos, brigamos para não senti-los, esquecê-los ou até mesmo tentamos escondê-los. Afinal vivemos em uma sociedade de fachada onde todos postamos a todo momento o quanto somos felizes e reconheço que somos sim felizes, mas não a todo momento.
Ninguém passa pela vida sem vivenciar a dor, a renúncia, a frustração, o medo, a inveja, a raiva e tantas outras emoções e aflições. Tão pouco deixa de sentir ela, a saudade.
Hoje quando acordei e vi um lindo dia de sol, sol de primavera e abri as janelas do meu peito (opa não posso plagiar Beto Guedes), e vi lindas flores e os olhos inocentes e cheios de amor dos bichinhos que temos em nossa casa, percebi quantos milagres de Deus temos a nossa volta todos os dias.
Mas não é que de repente me deparei com ela, a saudade. E não é que ela estava ali.
Parei e pensei: de que tenho tanto sentido falta? Não sei. Realmente não sei. Será de mim mesma? Será saudade daquela menina que fui? Mas como assim? Essa menina ainda está aqui. Será que está? Não sei.
Será saudade daqueles que amamos e não estão mais conosco? Será saudade daqueles amigos mais queridos que deixamos de visitar, sair, conviver? Ou será uma saudade daquilo já vivemos e amamos viver, momentos tão preciosos que nos deixaram doces saudades? Também não sei.
O que sei, ou melhor, o que sinto é que a saudade aumenta ao passo que ficamos mais maduros. Com o passar dos anos, colhemos tantas experiências, perdemos, ganhamos e continuamos seguindo todos os dias em frente em busca de nós mesmos.Quanto mais caminhamos, mais temos por lembrar e sentir saudades.
Que fique claro que esta saudade de que falo não é aquela saudade que te aniquila, deprime, mas aquela que te faz chorar, chorar de alegria! É essa que quero enfatizar. Às vezes estamos com saudade e não deprimidos,
Tão bom poder ter saudade ! Se tenho saudade de algo é porque vivi, senti. Quantas pessoas passarão em branco pela vida? Muitas, infelizmente. Como estou feliz de sentir ela, a saudade. A saudade que me faz lembrar das pessoas queridas que pude conviver, mesmo não podendo mais. Daqueles momentos lindos que se embala e amamenta seu bebê, momentos que você sabe que não voltarão mais, mas que são eternamente seus. Relembrar do colo de mãe, das brincadeiras de irmãos, da alegria de se ganhar um cachorro (novo membro da família), enfim elas, as saudades são tantas que nos fazem chorar, chorar de alegria por poder senti-las.Que delícia tê-las ao meu lado! Que triste quem não as têm...
Vamos então encarar quanto ela, a saudade,  der o ar da graça. Vamos sentir, relembrar e até chorar se der vontade, mas depois é enxugar as lágrimas, abrir um sorriso sincero e olhar para o horizonte pois é lá que está o nosso nascer e pôr do sol de todos os dias.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

PERDAS DIÁRIAS, PERDAS ETERNAS

Em tempos de tantas discussões sobre nossos direitos e deveres como cidadãos, discussões essas essenciais e salutares, muito tenho ouvido sobre o sofrimento de mães que criam sozinhas seus filhos sem  ajuda financeira e, principalmente, afetiva dos pais. Creio que cada um de nós conheça um caso ou mesmo o viva diariamente.
         Entre as angústias, rancores e medos que insuflam o coração dessas mulheres e a ânsia de ter os direitos de seus filhos respeitados, ficam também  crianças e jovens em meio a um emaranhado de sentimentos perdidos e incompreendidos. Se, por sua vez,  a justiça vem como protetora dos direitos básicos de subsistência de menores que devem ser resguardados, ela é capenga e sempre  será na questão da afetividade. Afinal cobrar uma pensão é viável, mas afeto não.
O afeto não tem como ser cobrado, exigido, forçado. E é nesse aspecto que compreendo a revolta das mães sós que afetivamente criam sozinhas de forma heroica seus filhos.  Se ainda conseguem cobrar direitos judiciais, sentem-se fracas por não conseguirem o que de fato queriam: sentir seus filhos amados pelos pais de forma voluntária.  Mas amar é de graça e mostrar amor também. Não há como forçar demonstrações de afeto.
Apesar da agonia de se culparem por ter achado o “pai errado”, de sentirem o sofrimento nos olhos de seus filhos e tentarem se desdobrar pra suprir o que nunca será suprido, elas estão infinitamente perdoadas sem precisarem ser, pois são verdadeiras vencedoras.
Perdedores são aqueles que, por vontade própria, se furtam não às obrigações,  mas aos prazeres diários de ser um pai atuante. Se  furtam de ouvir relatos diários do crescimento pessoal de um filho. Se  ausentam de um abraço no final de um dia cansativo, de uma gargalhada gostosa, de um cineminha no domingo, de um papo em frente à TV. Enfim, perdem o mais gostoso da vida que é sentir o coração mais quente junto ao filho amado.

Quem pouco dá muito perde e quem muito dá só se abastece. Para os que ainda não acordaram, para os cegos e secos de afeto, podem ser apenas pequenas  perdas diárias de convívio, mas que certamente se transformarão em perdas irreparáveis e eternas.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O PODER REGENERADOR DO NÃO

          Vivemos em uma época em que dizer não é muito difícil. Somos diariamente engolidos por questões e situações que nos impelem a acatar o que vem sem de fato nos posicionarmos com clareza e firmeza.
           Muitas vezes aceitamos tudo de forma pacata por medo de enfrentar a situação, medo de argumentar ou simplesmente por estarmos cansados para debater nosso próprio posicionamento. Há momentos que queremos ser tão delicados e educados que esquecemos de nossas próprias vontades e verdades.
           Afinal dizer "não" requer coragem, clareza e disponibilidade. Eu preciso sim estar disponível para me ouvir, ter clareza para aceitar minhas determinações e coragem para bancá-las. Não se consegue mudar da noite para o dia. Aprender a dizer "não" dá trabalho e requer prática diária. Com leveza pode-se começar a marcar seu território sem magoar, agredir ou destruir o outro com um "não" torto e mal humorado.
          Portanto, comece hoje a rever como você anda lidando com as questões diárias que o cercam. Quantas concessões tem feito ? Quantos momentos tem suprimido vontades próprias em prol de vontades alheias ? Não se trata aqui de se tornar uma pessoa egoísta e autocentrada. Muito pelo contrário, trata-se de considerar a si como aos demais com o mesmo peso e a mesma medida. Afinal pode-se dizer "não" de forma doce e gentil sempre que for possível e desfrutar do delicioso e regenerador poder desse advérbio de negação. 


quinta-feira, 3 de julho de 2014

AMANDA (relendo meus poemas nas férias)

AMANDA

Amanda é uma menina estranha
Quando acorda ainda dorme
Quando canta a todos espanta
Se ri, se escangalha
Se chora, se espalha
Se ganha, tudo é uma avalanche
Debocha, ri, caçoa, a todos "zoa"
Se perde, quer revanche.

Arrumação? Deixa pra amanhã ?
E amanhã ?
Dá pra deixar pra amanhã?
Amanhã de manhã ?
E depois de depois de amanhã?

Quando lembra, lembra que esqueceu.
Esqueci ? Quem? O quê ? Eu ?!

Mas apesar de tudo,
Amanda é Amanda
Única, livre e risonha
É bela, é doce e amável.

Amanda
Segue sua linha no chão
e lembra que quem realmente manda, Amanda,
é o seu coração.

domingo, 29 de junho de 2014

O DESAFIO DE CADA UM

O DESAFIO DE CADA UM
                Esta semana ouvi relatos de meus sobrinhos de suas vivências e sentimentos. Após ouvir, refletir e debater ideias surgiu a vontade de ampliar uma discussão que me parece fazer parte da vida de muitas pessoas.
  As pessoas vivem diariamente seus desafios individuais. Em meio a tantas questões que nos invadem sejam pelas nossas mentes ou pelos meios de comunicação, temos também nossas questões mais íntimas e pessoais que devem ser respeitadas. Uma vez ouvi uma frase “nunca menospreze o que está sentindo, pois sentimentos são importantes marcadores da nossa vida”. Acredito que este pensamento seja a pura verdade. Afinal só conseguimos mensurar a nossa dor e não a do outro. Por mais que tentemos, que usemos a compaixão, que nos coloquemos no lugar do outro – e acredito que isso é bem possível – não sentiremos nunca igual ao próximo.
                Hoje vivemos uma era de tanto e de tão pouco ao mesmo tempo. Ao passo que se tem tantos amigos em redes sociais nunca as pessoas reclamaram tanto da dificuldade de se encontrar uma amizade ou a verdadeiros. As pessoas vivem sempre conectadas com alguém ou algo, mas demonstram continuarem a se sentir só.
                Nesse conflito dos solteiros que dizem não conseguir se relacionar seriamente porque as pessoas não se entregam – inclusive os próprios – há o reflexo de uma sociedade que se esconde atrás de falsas propagações de felicidade. Hoje vende-se a felicidade nas redes sociais. A maioria das pessoas só posta felicidade e quem, erradamente, não reflete sobre isso, se sente frustrado por não ser assim todo tempo. Afinal não se é feliz o tempo todo. E essa é a dinâmica da vida.
                De um outro lado, há as pessoas que estão insatisfeitas com relacionamentos. Que não se encontram felizes com o parceiro ou parceira que divide seus momentos de vida. Resumindo, a insatisfação está presente no mundo individual das pessoas. Cada um lamentando e vivenciando seus desafios diários.
                Como equalizar isso, se é que é possível? Pensar em ângulos diferentes talvez ajude. Quem está só deve pensar que queria muito estar com alguém certo? Porém estar com alguém é um desafio, pois você tem que conviver, dormir, comer com uma pessoa que foi criada em um outro contexto que o seu.
                Quem está com alguém e muitas vezes se pergunta por que ainda mantém um relacionamento cheio de problemas e dilemas ou tem uma necessidade de viver algo novo deve pensar que ficar sozinho também é um desafio. Escolher não compartilhar a vida com alguém tem seus prós e contras.
                Ao discutirmos essas questões concluímos que não se tem manual pra ser feliz, que temos sim desafios diários a serem vencidos.
                Quem tem um bom parceiro ao seu lado – e quando eu digo bom me refiro aquele olhar dócil e real do meu parceiro, deve buscar nele o que ele tem de melhor. Não há fórmula pra melhorar a rotina, a relação. A rotina faz parte da vida humana, mas quem disse que ela é ruim ? Afinal, todos temos bons e maus dias. Quando meu olhar para o que eu tenho se torna grato, tudo se transforma.
                Se por algum motivo estou só, que tal passar a olhar o outro de uma forma menos armada. Que tal largar a armadura e conhecer pessoas sem expectativas maiores que o normal ? Que tal olhar para si mesmo e aproveitar o máximo esse ser especial que você é ?

                Enfim, não há respostas prontas. Como disse, cada um sente de seu modo e deve ser respeitado. Em um mundo tão cheio de conflitos simplificar a vida pode amenizar os desafios diários que enfrentamos. Simplificar não é mediocrizar a rotina e sim valorizá-la.