terça-feira, 19 de agosto de 2014

PERDAS DIÁRIAS, PERDAS ETERNAS

Em tempos de tantas discussões sobre nossos direitos e deveres como cidadãos, discussões essas essenciais e salutares, muito tenho ouvido sobre o sofrimento de mães que criam sozinhas seus filhos sem  ajuda financeira e, principalmente, afetiva dos pais. Creio que cada um de nós conheça um caso ou mesmo o viva diariamente.
         Entre as angústias, rancores e medos que insuflam o coração dessas mulheres e a ânsia de ter os direitos de seus filhos respeitados, ficam também  crianças e jovens em meio a um emaranhado de sentimentos perdidos e incompreendidos. Se, por sua vez,  a justiça vem como protetora dos direitos básicos de subsistência de menores que devem ser resguardados, ela é capenga e sempre  será na questão da afetividade. Afinal cobrar uma pensão é viável, mas afeto não.
O afeto não tem como ser cobrado, exigido, forçado. E é nesse aspecto que compreendo a revolta das mães sós que afetivamente criam sozinhas de forma heroica seus filhos.  Se ainda conseguem cobrar direitos judiciais, sentem-se fracas por não conseguirem o que de fato queriam: sentir seus filhos amados pelos pais de forma voluntária.  Mas amar é de graça e mostrar amor também. Não há como forçar demonstrações de afeto.
Apesar da agonia de se culparem por ter achado o “pai errado”, de sentirem o sofrimento nos olhos de seus filhos e tentarem se desdobrar pra suprir o que nunca será suprido, elas estão infinitamente perdoadas sem precisarem ser, pois são verdadeiras vencedoras.
Perdedores são aqueles que, por vontade própria, se furtam não às obrigações,  mas aos prazeres diários de ser um pai atuante. Se  furtam de ouvir relatos diários do crescimento pessoal de um filho. Se  ausentam de um abraço no final de um dia cansativo, de uma gargalhada gostosa, de um cineminha no domingo, de um papo em frente à TV. Enfim, perdem o mais gostoso da vida que é sentir o coração mais quente junto ao filho amado.

Quem pouco dá muito perde e quem muito dá só se abastece. Para os que ainda não acordaram, para os cegos e secos de afeto, podem ser apenas pequenas  perdas diárias de convívio, mas que certamente se transformarão em perdas irreparáveis e eternas.