Em tempos de tantas discussões sobre
nossos direitos e deveres como cidadãos, discussões essas essenciais e
salutares, muito tenho ouvido sobre o sofrimento de mães que criam sozinhas
seus filhos sem ajuda financeira e,
principalmente, afetiva dos pais. Creio que cada um de nós conheça um caso ou
mesmo o viva diariamente.
Entre as angústias,
rancores e medos que insuflam o coração dessas mulheres e a ânsia de ter os
direitos de seus filhos respeitados, ficam também crianças e jovens em meio a um emaranhado de
sentimentos perdidos e incompreendidos. Se, por sua vez, a justiça vem como protetora dos direitos
básicos de subsistência de menores que devem ser resguardados, ela é capenga e
sempre será na questão da afetividade.
Afinal cobrar uma pensão é viável, mas afeto não.
O afeto não tem como ser cobrado, exigido,
forçado. E é nesse aspecto que compreendo a revolta das mães sós que
afetivamente criam sozinhas de forma heroica seus filhos. Se ainda conseguem cobrar direitos judiciais, sentem-se
fracas por não conseguirem o que de fato queriam: sentir seus filhos amados
pelos pais de forma voluntária. Mas amar
é de graça e mostrar amor também. Não há como forçar demonstrações de afeto.
Apesar da agonia de se culparem por ter
achado o “pai errado”, de sentirem o sofrimento nos olhos de seus filhos e
tentarem se desdobrar pra suprir o que nunca será suprido, elas estão infinitamente
perdoadas sem precisarem ser, pois são verdadeiras vencedoras.
Perdedores são aqueles que, por vontade
própria, se furtam não às obrigações, mas aos prazeres diários de ser um pai
atuante. Se furtam de ouvir relatos
diários do crescimento pessoal de um filho. Se ausentam de um abraço no final de um dia
cansativo, de uma gargalhada gostosa, de um cineminha no domingo, de um papo em
frente à TV. Enfim, perdem o mais gostoso da vida que é sentir o coração mais
quente junto ao filho amado.
Quem pouco dá muito perde e quem muito dá
só se abastece. Para os que ainda não acordaram, para os cegos e secos de afeto, podem ser apenas pequenas perdas diárias
de convívio, mas que certamente se transformarão em perdas irreparáveis e
eternas.