sábado, 4 de abril de 2015

O OLHAR DA LOUCURA

Semana passada, ao ir para o trabalho, me deparei com uma cena que me fez refletir sobre como estamos alheios aos outros. Nessa desenfreada corrida do dia a dia que, geralmente, não nos leva a lugar algum, estamos perdendo o cuidado e o olhar para o outro. Tanto o outro conhecido quanto o desconhecido. Me refiro a conhecido aquele que está ao seu lado todos os dias como pai, mãe, filho, filha, irmã, marido, esposa, etc e o outro desconhecido aquele que passa por nós na calçada, que trabalha conosco mas sequer nos dirigimos à palavra ou o olhar e assim por diante.
Na calçada havia um homem deficiente sentado sobre suas pernas tortas. Não me pareceu que mendigava. Parecia estar à espera de algo ou alguém. Sua deficiência o limita tanto que, não tendo uma cadeira de rodas, se arrasta pelas ruas quando se locomove. Cena triste de se ver.
Ao lado dessa cena, observo outra não tão suave quanto à anterior. Pela calçada vem um homem que perambula pelas ruas falando sozinho, verbaliza e gesticula sem parar. Vira chacota e zombaria pra uns ou faz esboçar em algumas faces expressões de dó ou reprovação. Sua figura já é conhecida pelas ruas das cidade onde costumeiramente é chamado de esquizofrênico.
Em questões de minutos, ao atravessar de um lado da praça ao outro, presenciei uma cena no mínimo tocante. Enquanto todos passaram rapidamente fechados e lacrados em seus mundos e pensamentos particulares pelo deficiente, incluindo eu, me chama atenção a voz alta do rapaz "louco".  Na correria de todos e na minha reparei que o único a desviar o olhar para o deficiente foi o "louco" que anda a falar sozinho pelas ruas. Ele se aproximou do deficiente e falou : "Amigo, a gente precisa arrumar uma cadeira de rodas pra você não é ?" Continuaram ali trocando poucas palavras e o "louco" seguiu seu caminho a conversar com seus amigos ou inimigos imaginários.
Não tive como não refletir sobre loucura e sanidade em nossos dias. Quem realmente é são e quem realmente é louco ? Não me senti nada sã ao perceber como ignoramos o outro e como vi sanidade naquele "doido varrido" que anda pelas ruas e avenidas.
Lembrei de Machado de Assis e sua obra "O Alienista" - vale a dica de leitura - entender e separar nesse nosso louco mundo cão quem é são e quem é louco é tarefa árdua. Pois louco hoje é aquele que para e olha o outro com ternura e sãos somos nós que o ignoramos.