quinta-feira, 14 de março de 2019


 TODOS É GENTE DEMAIS

                Dedico esse texto, em especial, às mulheres. É raro escrever assim algo tão específico porque não gosto dessa segregação polarizada entre o feminino e o masculino. Acredito que, quase sempre, toda generalização é meio burra. Creio que temos esses dois lados dentro de nós seja de qual gênero formos. Não importa o quanto de testosterona ou estrogênio temos. Somos todos humanos, falíveis e seres em movimento, em crescimento contínuo.
            Tenho percebido em mim um certo desassossego ao ouvir certas coisas de mulheres mais maduras. Essas que, como eu, já cruzaram a via dos quarenta e, por conseguinte, provavelmente já amaram (ou não), casaram (ou não), foram traídas (ou não), se divorciaram (ou não), amaram de novo (ou não), mas que, enfim, já viveram mais que as adolescentes que hoje se aventuram no campo amoroso.
            A razão do desassossego vem das falas secas, acomodadas e às vezes até amargas que vêm ecoando em meus ouvidos. Em variadas situações e grupos de conversas femininas ouço frases do tipo “A mulher que ainda não foi traída um dia será. Preparem-se!”, “Os homens tem o instinto de trair, não há como escapar disso.”, “Amor verdadeiro entre homem e mulher não existe.”, “Casamento é um acordo de interesses e só.”
            Pausa para decodificar cada mensagem citada acima. Vivo eu numa bolha ou isso é normal? Desculpe se pareço ingênua e romântica, mas a proposta de reflexão aqui nada tem a ver com romances que terminam com o clássico “e foram felizes para sempre...”, até porque já fui traída. Sei que no mundo em que vivemos fidelidade é algo raro sim e que trair e ser traído sempre existiu e continuará existindo. Quem lembra que adultério era crime antigamente? No Brasil a prática do adultério já foi capitulada como crime no artigo 240 do Código Penal, tendo sido revogado em 2005.
            Estamos todos expostos à traição. Cá estamos no planeta Terra convivendo com seres imperfeitos e em construção. Cá estamos rodeados de oportunidades diárias, reais ou virtuais, de trairmos nossos parceiros. Isso é fato.
            Abro uma brecha também para levarmos em conta as inúmeras traições e decepções que sofremos, sejam provenientes de relações amorosas ou não, desde nossa primeira respiração. A traição pode vir de um suposto amigo, de um colega de trabalho e mesmo do parceiro ou parceira de vida.
            Nem sempre é a traição amorosa. Pode ser financeira também. Sabe aquele parceiro em que você não pode confiar seus planos e sonhos porque ele não se organiza financeiramente ? Ou aquele que sabota as contas conjuntas ou se encosta na parceira que trabalha arduamente? Eles existem e isso é também uma forma de deslealdade. E aquele parceiro ausente, distante e egocêntrico? Respira o nosso ar também.  Tem o invejoso, que te bota pra baixo, que não te respeita. Esse também perambula por aí. E é claro que há o clássico companheiro  machista que traia mulher e acha normal. Quanto aos que agridem suas parceiras e as subjugam então nem se fala. São abomináveis. Esses e outros exemplos, infelizmente,  brotam por aí a olhos vistos.
            Será muito difícil viver em uma relação perfeita, mas minha inquietação provem das frases que ando ouvindo de mulheres sobre ser uma sina ser traída. Penso que, se você está em uma relação que suscita esse tipo de pensamento sempre, que faz manifestar em você falta de confiança (em si e no outro), saia fora amiga! Ou pelo menos se optou por viver esse fardo guarde pra você suas frustrações e te digo o porquê.
            No momento em que digo “Todo homem trai.” me coloco como vítima, fadada a me conformar com isso. É generalizar demais ou amargar e não superar uma situação vivida. “Se você ainda não foi traída, um dia será.” Nossa pobre de nós mulheres! As previsões são nefastas.
            Acredito que tudo pode acontecer ou não. Afinal um relacionamento se constrói não só com flores mas também com dores. E o que fará a diferença não é o que fizeram ou farão com você, mas sim como você resignificará isso tudo dentro de si. Se aceito essas crenças machistas desalinho quem sou enquanto mulher.
            Só mais uma provocação: são essas mulheres que proferem esse discurso das traídas iguais aos homens que as traem só que  não se assumem? Que tal a frase “Todo homem um dia será traído porque eu, mulher, também sinto vontade e até já trai”. Não há vítimas nessas historinhas. Há sofrimento e desalinho seja homem ou mulher traído.
            Seja qual for o seu discurso escolhido saiba que ele é seu. Que amargar com palavras a vida alheia não é legal. Existe sim gente fiel, existe sim gente feliz e, principalmente, existe sim amor genuíno e puro. Repito genuíno e puro, mas não perfeito. Saudações aos românticos!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019


CRUZEIROS, SANDRA ANNENBERG E EU


               Acabei de fazer mais um cruzeiro. Dessa vez o tempo de viagem foi menor, pois foram apenas três dias. Vai pra conta do sexto cruzeiro feito. O penúltimo que fiz também foi muito legal porque conheci quatro ilhas caribenhas e pude ficar em Cuba e conhecer esse excêntrico  maior país caribenho ( excêntrico para nós capitalistas).
               Voltando à minha viagem de férias, ou seja, meu último cruzeiro, posso dizer que foi um destino diferente. Decidimos pegar o navio no meio de seu roteiro, em Salvador, para poder antes desfrutar do calor, do sol e da energia nordestinos. Fomos de avião e partimos para Praia do Forte, em Mata de São João. Indico com força essa rota porque tem muita praia boa, gente sorridente e tartaruga. Praia do Forte é uma aldeia de pescadores e é um charme de lugar.
               A volta foi de cruzeiro. Eu queria conhecer um enorme navio chamado Fantasia da MSC. Gigantesco navio com elevador panorâmico, piscina retrátil e uma escada de swaroviski. Essa viagem me deu a oportunidade de ficar dias de chinelo vendo tartaruga, sem maquiagem, andando de bicitáxi, esquecendo até de hidratar o cabelo. E voltei aproveitando alguns dias de piscina, jantares, salto alto e shows fantásticos. Um luxo o navio.
               E onde entra a Sandra Annenberg, ora citada no título, nessa história? Certa vez ouvi a repórter, que por sinal amo de paixão por sua espontaneidade ao apresentar o Jornal Hoje, dizer que odiava cruzeiros pelo furdunço que são.  Durante a viagem de volta pensei muito na Sandra.
               Os navios são luxuosos e enormes. Você tem diversão a toda hora e pra todos os gostos. Eu gosto muito, mas Sandra Annenberg está coberta de razão: é um furdunço só! Aconselho a entrar no clima, se deliciar com a comida e paisagem, sair toda elegante na noite do jantar com o comandante (rimou!) e aproveitar. Segue uma NOT TO DO LIST e outra TO DO LIST. Veja em qual você se encaixa:
·        Se você não se importa com ambientes super lotados, vá e se jogue! Aproveite os lounges com diversos gêneros musicais.
·        Se curte uma piscina de água salgada ao som de Michel Teló  - acabei de ter um flashback do cruzeiro ao Caribe. Ao chegar em Cuba, entrando no navio, fui recepcionada com “Ai se eu te pego, ai, ai, ai se eu te pego”. Confesso que isso me chocou. Em Cuba? Ok, já superei.) –Annita e outros hits do tipo com direito a animadores fazendo brincadeiras e quizzes, é o programa perfeito pra você. Caso contrário não vá. Não há sossego e achar uma espreguiçadeira é um milagre e às vezes sai até briga por elas.
·        Se você gosta de comer bem será perfeito pra você fazer um cruzeiro. Os jantares gourmets com entrada, prato principal e sobremesa são maravilhosos. Vá e pense na dieta depois. No entanto há o almoço (ou jantar pra quem não curte comida gourmet) no restaurante self-service vinte e quatro horas que costuma ser próximo à piscina em que comemos em bandejas. Não é prato é um bandejão. A sensação que se tem é que faltará comida pelos próximos dez anos. Só se vê montanhas de alimentos nos pratos alheios. Foque no seu hábito alimentar, se for possível, e siga forte. Se detesta tumulto, tilintar de talheres, falatório e filas não vá.
·        Se você não se importa de esperar calmamente pelos lindos elevadores  e ignora e tem paciência com pessoas que cheguem depois de você e entrem na sua frente correndo, vá. Você terá que pegar, talvez, um outro elevador porque haverá apressadinhos que devem ter seus motivos pra correrem assim estando de férias atrás de elevadores ou de um prato de comida. De férias a única pressa que tenho é de relaxar. Se não suporta algumas deselegâncias não vá.
Citando a Sandra de novo, ela sempre fala da importância da elegância (mais uma rima). O fato é que os cruzeiros vendem uma elegância inexistente e concordo com Sandra sim, são um furdunço. Como, em um curto espaço de dias, quatro mil pessoas juntas conseguem ser elegantes o tempo todo? No way baby.
Em um cruzeiro esqueça, de vez em quando, a elegância e educação alheias. Foque na sua própria elegância, resgate sua paciência interior em alguns momentos e desfrute do que há de melhor: as ondas quebrando no casco do navio sob um lindo céu azul. Não deixe de ver o mar à noite iluminado pela lua deixando um rastro de espuma branca, inspire e aproveite a maresia que vem com o vento. Faça você o seu cruzeiro. Guarde esses incríveis prazeres sensoriais só pra você porque na sua cabine, neste delimitado pequeno espaço comparado ao todo da embarcação, quem manda é você e até meditar ao som das ondas e observar uma gaivota que segue o navio (e pensar que ela está te seguindo há dias) é possível. E sim vai te fazer muito feliz.
               Indico e encorajo a experiência para quem ainda não se aventurou. Só não posso deixar de dizer: por via das dúvidas, leve seu remédio para enjoo. Só precaução. Nunca se sabe. Depois desfrute, após a descida do navio, de alguns dias ainda com a sensação flutuante no corpo mesmo estando com os pés cravados no chão. Nada que estragará suas lembranças dessa viagem. O que está fazendo aí que ainda não escolheu seu roteiro marítimo?


terça-feira, 30 de junho de 2015

QUAL É O SEU MOTOR ?



Hoje em dia há tamanha preocupação com o envelhecer e uma enorme dificuldade de se aceitar esse fato real e irreversível. Somos impregnados por ideias de uma sociedade que quer ser jovem, linda, feliz e bem sucedida o tempo todo. Vivemos, pois, o irreal acreditando que ele existe. E quando não quebramos essa lógica ilógica da valorização do externo em detrimento ao que realmente somos, só chegamos a um único e solitário estágio: o sofrimento.
Essa semana escutei um depoimento de um senhor de uns 70 anos sobre sua vida e o que o motiva. Ele é paraquedista e a todos surpreende com sua vitalidade e notável alegria de viver. Perguntado sobre como consegue manter essa vitalidade e praticar um esporte radical na idade em que está, sua resposta foi sábia e natural vinda de seus experientes anos de vida.
De longe a resposta do senhor paraquedista foi descrever sua rotina de exercícios físicos e sua alimentação balanceada ou de como mantém sua mente vívida. Simples e humildemente ele disse que ao longo de sua vida teve a sorte de ter dois motores que o impulsionaram e o impulsionam até hoje: uma esposa zelosa e parceira e uma filha amorosa.
A simplicidade de sua resposta pareceu não satisfazer a entrevistadora, que queria talvez saber mais como ter coragem para se pular de para-quedas. Mais uma vez sabiamente ele disse que não há coragem alguma em ir aos céus, pois o avião o leva e tão pouco ao pular do avião porque a gravidade o traz de volta à terra. Voltou a falar sobre a importância dos motores que cada um tem em sua vida. Não sei se a entrevistadora se satisfez. A mim a resposta caiu como uma luva.
O foco de sua fala não foi a coragem e sim o afeto. O motor desse homem é sua família - seu recanto de amor e sossego. Sua resposta tanto me satisfez que se fez de motor para gerar essa reflexão em forma desse texto.
É no movimento que encanta que tudo surge, inventa, reinventa, ata e desata num ciclo perfeito e contínuo de luz e amor. Que diariamente sejamos inundados com respostas simples como estas que nos façam pensar sobre nossos motores, que nos desnudem de cascas que não são nossas, que  nos norteiem a encontrar novos motores ou ligar motores esquecidos, pois é no movimento que tudo acontece, floresce e nos rejuvenesce!

sábado, 4 de abril de 2015

O OLHAR DA LOUCURA

Semana passada, ao ir para o trabalho, me deparei com uma cena que me fez refletir sobre como estamos alheios aos outros. Nessa desenfreada corrida do dia a dia que, geralmente, não nos leva a lugar algum, estamos perdendo o cuidado e o olhar para o outro. Tanto o outro conhecido quanto o desconhecido. Me refiro a conhecido aquele que está ao seu lado todos os dias como pai, mãe, filho, filha, irmã, marido, esposa, etc e o outro desconhecido aquele que passa por nós na calçada, que trabalha conosco mas sequer nos dirigimos à palavra ou o olhar e assim por diante.
Na calçada havia um homem deficiente sentado sobre suas pernas tortas. Não me pareceu que mendigava. Parecia estar à espera de algo ou alguém. Sua deficiência o limita tanto que, não tendo uma cadeira de rodas, se arrasta pelas ruas quando se locomove. Cena triste de se ver.
Ao lado dessa cena, observo outra não tão suave quanto à anterior. Pela calçada vem um homem que perambula pelas ruas falando sozinho, verbaliza e gesticula sem parar. Vira chacota e zombaria pra uns ou faz esboçar em algumas faces expressões de dó ou reprovação. Sua figura já é conhecida pelas ruas das cidade onde costumeiramente é chamado de esquizofrênico.
Em questões de minutos, ao atravessar de um lado da praça ao outro, presenciei uma cena no mínimo tocante. Enquanto todos passaram rapidamente fechados e lacrados em seus mundos e pensamentos particulares pelo deficiente, incluindo eu, me chama atenção a voz alta do rapaz "louco".  Na correria de todos e na minha reparei que o único a desviar o olhar para o deficiente foi o "louco" que anda a falar sozinho pelas ruas. Ele se aproximou do deficiente e falou : "Amigo, a gente precisa arrumar uma cadeira de rodas pra você não é ?" Continuaram ali trocando poucas palavras e o "louco" seguiu seu caminho a conversar com seus amigos ou inimigos imaginários.
Não tive como não refletir sobre loucura e sanidade em nossos dias. Quem realmente é são e quem realmente é louco ? Não me senti nada sã ao perceber como ignoramos o outro e como vi sanidade naquele "doido varrido" que anda pelas ruas e avenidas.
Lembrei de Machado de Assis e sua obra "O Alienista" - vale a dica de leitura - entender e separar nesse nosso louco mundo cão quem é são e quem é louco é tarefa árdua. Pois louco hoje é aquele que para e olha o outro com ternura e sãos somos nós que o ignoramos.

domingo, 15 de março de 2015

CAMINHEMOS ENTÃO PORQUE EM MOVIMENTO NOS TRANSFORMAMOS

Quero acreditar que estamos em processo de educação política. Preciso acreditar nisso ou meu trabalho na educação perde todo o sentido. Quero acreditar que estamos errando tanto para chegar em algum lugar melhor. Preciso acreditar nisso.
Preciso crer que todo esse panorama descrente e corruptível faz parte de uma longa caminhada ao aprendizado de nos tornarmos seres conscientes e engajados de fato no processo de transformação de nosso país.
Em tantas mobilizações, muitas dessas, estapafúrdias, engraçadas até, vemos pessoas se pronunciando contra ou a favor do que estamos vivendo. 
À parte de suas reais motivações, vejo tais manifestações de forma positiva. Passamos anos e anos com uma geração, pós geração caras-pintadas, de seres apáticos e inertes politicamente. 
Se estamos meio tortos ainda nas expressões que vemos, que tenhamos um pouco de paciência. Afinal em um país onde não se valoriza a educação, a educação política não se dá do dia para a noite.
É um longo trilhar de erros e acertos. Mas imbuídos de estado de cidadania de fato conquistaremos a posição que almejamos de um país menos corrupto e mais justo com seus cidadãos.
Difícil ser otimista, porém a máscara do pessimismo nunca me caiu bem. Talvez por ser máscara. Enfim, vamos caminhar,  em frente, cabeça erguida sem esquecer de  discutir, reclamar, argumentar, expor conceitos, porém sem esquecer que nosso compromisso certeiro está nas urnas. É nela que colocamos de fato nosso poder. É nela que a liberdade adquire forma. Respeitemos a decisão popular, Aguentemos ou celebremos a decisão das urnas. Lembrando sempre que, apesar dos percalços, em uma democracia poderemos impor novamente nossa vontade nas próximas eleições. Rezemos então para que nas próximas urnas estejamos mais mobilizados e politicamente educados.