Vinha
eu caminhando pelas ruas de Friburguinho – para ser mais exata eu flanava pela
tranquila Av. Alberto Braune (destaque aqui para o deboche porque esta avenida
hoje é tudo menos tranquila), voltando da aula de pilates. Devo dizer que
qualquer atividade pós recessos e pós certas faixas etárias são capazes de te
fazer sentir uma lesma cambaleante ambulante. Pois vinha eu com os braços
trêmulos depois de exercícios como flexões de braço e pranchas feitas em
variados estilos. Para piorar a situação meus amiguinhos de pilates (todos) me
abandonaram nesta segunda-feira (momento “eu – a vítima”) de modo que tendo um
personal pilates sádico como professor saí de lá pedindo arrego.
Enquanto
eu (a vítima) se arrastava pela avenida, algo me fez parar. Uma cena. Tenho
feito exercícios de mindfullness e meditação para viver no momento presente e
nessa cena eu parei, ou melhor, fui parada.
Em
um ponto de ônibus de fronte a uma farmácia chega um ônibus. Era um coletivo
desses preparados para cadeirantes. Já viram algum por aí? Pois bem, eles têm
um elevador para encaixe de cadeiras de rodas. Até aqui tudo estaria perfeito
se esse maquinário todo estivesse funcionando a contento. Havia uma senhorinha,
bem pequenininha, talvez até pela sua deficiência. Estava lá do lado de fora em
sua cadeira de rodas aguardando. O motorista tentava de várias formas descer o
elevador. A engrenagem ficava num sobe e desde, e tenta por a senhora, e tira a
senhora porque a plataforma não está plana e nada de conseguir um ângulo adequado
para encaixar a cadeira. Finalmente após idas e vindas, subidas e descidas
conseguiram por a senhora no elevador. E começou a subida da senhorinha que
entre risinhos dava gritinhos (pura adrenalina). Uma outra mulher que estava no
ponto de ônibus a ajudou durante a subida firmando a cadeira porque pra falar a
verdade a plataforma estava meio inclinada.
E
eu ali observando. Quem sabe posso ajudar? Fui desnecessária, mas segui meu
trajeto com uma espécie de vergonha. Vergonha de viver em um país que faz dos
deficientes pessoas invisíveis. Afinal por que não revisar se o tal elevador
está adequadamente funcionando? Por que não investir em calçadas decentes para
dar acessibilidade digna aos cadeirantes?
Há
uma contradição aí. Ao passo que aos deficientes é negada a acessibilidade e,
por conseguinte, são invisíveis à sociedade, quando precisam pôr a cara na rua
acabam chamando atenção porque para irem e virem quase que se tem que chamar a
SWAT (ainda existe?) ou o esquadrão anti-bombas ou o Corpo de Bombeiros porque
não conseguem se locomover dignamente.
Senti
também vergonha das reclamações do pilates. É somos sim reclamões sem causa.
Depois segui com minhas sacolas de compras subindo o morro das Braunes
quietinha. Cada passo firme no chão teve um outro significado. Como o peso das
bolsas e o suor escorrendo ficaram leves como uma pena, principalmente quando
lembrava da expressão facial da senhora. Ela em nenhum momento reclamou ou
esbravejou. Pelo contrário dava risinhos (podia até ser de nervoso) mas em hora
alguma reclamou ou se ofendeu.
Pra
que esse textão? Para mim foi para agradecer cada passo firme que dei morro
acima com um sorriso no rosto. Se os braços ainda doíam durante a subida ? Sim.
Estão doídos até hoje, mas isso não é nada, isso é poder se movimentar, é vida!
Que
os deficientes sejam vistos dignamente como merecem. Eles não querem piedade.
Querem acessibilidade!

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