domingo, 3 de março de 2019

PESSOAS INVISÍVEIS





                Vinha eu caminhando pelas ruas de Friburguinho – para ser mais exata eu flanava pela tranquila Av. Alberto Braune (destaque aqui para o deboche porque esta avenida hoje é tudo menos tranquila), voltando da aula de pilates. Devo dizer que qualquer atividade pós recessos e pós certas faixas etárias são capazes de te fazer sentir uma lesma cambaleante ambulante. Pois vinha eu com os braços trêmulos depois de exercícios como flexões de braço e pranchas feitas em variados estilos. Para piorar a situação meus amiguinhos de pilates (todos) me abandonaram nesta segunda-feira (momento “eu – a vítima”) de modo que tendo um personal pilates sádico como professor saí de lá pedindo arrego.
                Enquanto eu (a vítima) se arrastava pela avenida, algo me fez parar. Uma cena. Tenho feito exercícios de mindfullness e meditação para viver no momento presente e nessa cena eu parei, ou melhor, fui parada.
                Em um ponto de ônibus de fronte a uma farmácia chega um ônibus. Era um coletivo desses preparados para cadeirantes. Já viram algum por aí? Pois bem, eles têm um elevador para encaixe de cadeiras de rodas. Até aqui tudo estaria perfeito se esse maquinário todo estivesse funcionando a contento. Havia uma senhorinha, bem pequenininha, talvez até pela sua deficiência. Estava lá do lado de fora em sua cadeira de rodas aguardando. O motorista tentava de várias formas descer o elevador. A engrenagem ficava num sobe e desde, e tenta por a senhora, e tira a senhora porque a plataforma não está plana e nada de conseguir um ângulo adequado para encaixar a cadeira. Finalmente após idas e vindas, subidas e descidas conseguiram por a senhora no elevador. E começou a subida da senhorinha que entre risinhos dava gritinhos (pura adrenalina). Uma outra mulher que estava no ponto de ônibus a ajudou durante a subida firmando a cadeira porque pra falar a verdade a plataforma estava meio inclinada.
                E eu ali observando. Quem sabe posso ajudar? Fui desnecessária, mas segui meu trajeto com uma espécie de vergonha. Vergonha de viver em um país que faz dos deficientes pessoas invisíveis. Afinal por que não revisar se o tal elevador está adequadamente funcionando? Por que não investir em calçadas decentes para dar acessibilidade digna aos cadeirantes?
                Há uma contradição aí. Ao passo que aos deficientes é negada a acessibilidade e, por conseguinte, são invisíveis à sociedade, quando precisam pôr a cara na rua acabam chamando atenção porque para irem e virem quase que se tem que chamar a SWAT (ainda existe?) ou o esquadrão anti-bombas ou o Corpo de Bombeiros porque não conseguem se locomover dignamente.
                Senti também vergonha das reclamações do pilates. É somos sim reclamões sem causa. Depois segui com minhas sacolas de compras subindo o morro das Braunes quietinha. Cada passo firme no chão teve um outro significado. Como o peso das bolsas e o suor escorrendo ficaram leves como uma pena, principalmente quando lembrava da expressão facial da senhora. Ela em nenhum momento reclamou ou esbravejou. Pelo contrário dava risinhos (podia até ser de nervoso) mas em hora alguma reclamou ou se ofendeu.
                Pra que esse textão? Para mim foi para agradecer cada passo firme que dei morro acima com um sorriso no rosto. Se os braços ainda doíam durante a subida ? Sim. Estão doídos até hoje, mas isso não é nada, isso é poder se movimentar, é vida!
                Que os deficientes sejam vistos dignamente como merecem. Eles não querem piedade. Querem acessibilidade!

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